O que existe em comum entre as grandes navegações marítimas dos séculos XV e XVI e o movimento de empreendedorismo que está sendo realizado em Portugal em pleno século XXI?

Combinar a exploração de novos mercados, por desejo ou necessidade, com o uso de novas tecnologias: essa foi a receita do sucesso para o ciclo das grandes navegações marítimas e também é o caminho para o sucesso de internacionalização de startups digitais em Portugal.

A MOTIVAÇÃO E O APOIO

Nos últimos meses do ano passado tivemos o privilégio de receber a visita do Secretário de Estado da Indústria de Portugal, Sr. João Vasconcelos, na sede do
Acelera MGTI. Fiquei muito impressionado com o que foi apresentado a respeito do cenário do empreendedorismo em Portugal, pesquisei mais a fundo algumas informações e planejamos a retribuição da visita, para conhecermos de perto o que está acontecendo. Contamos com todo apoio do Sr. Secretário e da sua equipe para o agendamento das reuniões com algumas das principais instituições do setor em Portugal.

A VIAGEM DO DESCOBRIMENTO (AO REVERSO)

Partimos (Wilson Caldeira e Flávia Guerra), representando o Acelera MGTI, não por meios marítimos, já que os tempos são outros e as tecnologias também, mas por via aérea mesmo, com o objetivo de fazer a viagem do “descobrimento” do ecossistema de inovação e empreendedorismo em “terras de além-mar”.

O movimento ocorre no país todo, das margens do Tejo à Foz do D’Ouro. Por isso, visitamos instituições de várias regiões do país, que atuam no setor do empreendedorismo digital (aceleradoras, incubadoras, universidades e startups) e foi possível compreender (“perceber” seria a forma mais correta para os lusitanos) de que forma os portugueses estão se posicionando como uma das principais portas de acesso ao mercado europeu para empresas e startups, com foco em negócios de base tecnológica.

LISBOA

Na capital nota-se uma maior vocação para empreendimentos B2C, com uma forte presença de aceleradoras, entre as quais visitamos a Beta-i e a Startup Lisboa. Ambas atuam em vários setores da economia, possuem programas bem estruturados para aceleração de startups digitais, com mentorias e acesso à investidores e, além disso, contam com o apoio de vários parceiros e entidades, com conexões nas Américas e na Europa.

Ainda em Lisboa, também tivemos a oportunidade de visitar a INOVISA, criada pelo Instituto Superior de Agronomia (ISA – ULisboa), com intuito de apoiar os seus docentes, pesquisadores e alunos a criarem o seu projeto empresarial com foco mais B2B no setor do agronegócio. Chamou a atenção o modelo de incubação virtual que traz resultados interessantes para a instituição e que pode servir de ponte para startups brasileiras que atuam nesse segmento, mas que ainda não possam se deslocar para fora do país para a exploração do mercado europeu.

COIMBRA

Indo em direção ao Norte, passamos por Coimbra e a força de uma instituição de ensino fundada em 1290, a Universidade de Coimbra, se faz presente no movimento de empreendedorismo na região. Visitamos o IPN (Instituto Pedro Nunes), criado por iniciativa dessa universidade, que tem como foco a inovação e a transferência de tecnologia, estabelecendo a ligação entre o meio científico e tecnológico e sua aplicação econômica.

Ficamos fortemente impressionados com a infraestrutura oferecida, a rede de contatos e instituições que suportam o instituto e a visão (colocada na prática por meio de suas startups) de transformação do conhecimento científico em negócios que moldam as ações do IPN. Apresentam índices de incríveis 75% de sobrevivência de suas startups e oferecem programas de “softlanding” para startups e empresas de outros países.

PORTO E BRAGA

Como última etapa de nossa exploração além-mar ao reverso, chegamos à região do Minho, onde tivemos a oportunidade de conhecer de perto o UPTEC, no Porto e a Startup Braga, em Braga.

Aqui, durante nossa visita, ouvi uma frase que me chamou muito a atenção: “de que adiantam termos uma série de artigos acadêmicos premiados e escritos se eles não contribuírem diretamente para o desenvolvimento social e econômico da região?”. É com esse espírito que o UPTEC – Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (ranqueada entre as 200 melhores universidades do mundo) foi criado para ser o pilar de apoio à transferência de conhecimento entre a universidade e o mercado, com o objetivo de suportar a terceira missão desse centro de ensino – a valorização econômica e social do conhecimento gerado.

A geração de conhecimento existe nas áreas marinha, biotecnologia, indústria criativa e tecnologia. Possuem programas “corporate”, com foco B2B, com diversas empresas de classe mundial, mas fazem questão de destacar a sua independência na condução de seus programas de empreendedorismo a partir desses projetos.

Na cidade de Braga visitamos a Startup Braga (aceleradora e incubadora), criada como um hub de inovação do município, com o objetivo de dinamizar a economia da região por meio de ações de empreendedorismo de base tecnológica, com destaque para os setores de Nanotecnologia e Medicina. Para isso, a instituição conta com parcerias de peso, como o Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL) e a Escola de Medicina da Universidade do Minho.

CONCLUSÃO

De uma forma geral, todos esses programas são autossustentáveis, ou seja, vivem da própria receita gerada pelo pagamento que as startups fazem para participação no programa, que inclui, instalações, mentorias, consultorias e um forte networking. Não é usual, nas instituições visitadas, a aquisição de “equity” das startups por parte das aceleradoras/incubadoras.

Fomos muito bem recebidos em todas as visitas que fizemos e conseguimos nos certificar que Portugal é uma porta de entrada das mais qualificadas para startups brasileiras que tenham como alvo o mercado europeu. Dificilmente será seu mercado para ganho de escala, mas certamente será seu “Beach Head” para validação do cliente no mercado europeu.

PRÓXIMOS PASSOS

Dessa forma, criamos as condições iniciais para a elaboração de um programa de intercâmbio entre as startups do programa de empreendedorismo Acelera MGTI, gerido pela Fumsoft, e algumas das instituições mais importantes no ecossistema de inovação em Portugal. Esperamos em breve divulgar as condições de acesso a esse intercâmbio, por parte das startups brasileiras e portuguesas.